quinta-feira, 14 de junho de 2007

O jeitinho brasileiro

Quando se fala em corrupção imagina-se, imediatamente, políticos corruptos que circulam por aqui ou pelos lados do planalto central.
Isso é porque o Brasil está imerso em uma imensa crise ética. Mas não é apenas no congresso ou no senado. A crise está em todas as esferas da sociedade brasileira. Pode-se dizer que isso não é apenas fruto das falcatruas vigentes em Brasília, mas, resultado de um processo histórico que se deu ao longo de 500 anos.
Costuma-se dizer que o comportamento corruptor da sociedade é apenas resultado da falta de exemplo dos governantes. É possível ser o contrário. E seria hipocrisia não admitir isso. O Estado é que é o reflexo da sociedade. E a sociedade está apática. Não tem ética e nem vontade de encontrá-la.
Reconhecido nacionalmente como a forma especial que os brasileiros têm para resolver seus problemas, o jeitinho, foi transformado em rito e sua prática se amplia para ser utilizada em todas as situações conflitantes da realidade social.
Desde o principio, na terra de Santa Cruz, portugueses já colocavam em prática a troca de favores para driblar as dificuldades. Invadiram a terra dos nativos e os encantaram com pentes e espelhos enquanto saqueavam a terra alheia. E com o passar dos anos, os padrões culturais da vida colonial brasileira se reproduziram da mesma forma.
A construção da sociedade é um exemplo de como as relações sociais fundamentam a prática do jeitinho, carinhosamente chamado de brasileiro. A sociedade brasileira é coletivista por natureza e não foi fundada no indivíduo, mas nas relações pessoais.
Bom por um lado, o brasileiro não é exclusivamente egoísta. Por outro, vivencia-se somente aquilo que as suas relações pessoais lhe permitirem conseguir.
A desigualdade do país dá a idéia – e não só a idéia, mas a real formação – de injustiça social. E essa situação cria possibilidades para se formar mecanismos úteis a fim de driblar essa injustiça. A própria deficiência do sistema jurídico acaba transmitindo o desejo de caminhar na contramão das normas, quando convém. Tem sempre um jeitinho para fugir da burocracia, das filas intermináveis, da dificuldade para passar em um concurso público.
O jeitinho brasileiro é a transgressão suave já institucionalizada e aceita como característica fundamental e indispensável para o simpático e alegre brasileiro legitimar o seu poder diante dos outros. O seu problema é sempre mais urgente que o do vizinho. E isso, claro que somente isso, justifica que você fure a fila do supermercado.
O componente das relações pessoais que envolvem “capital” são interessantes. Acumula-se em termos de contato e influência. O antropólogo Roberto Da Matta diria: Seria como se as relações pessoais entre nós desempenhassem o papel do Judiciário nos países individualistas e igualitários. Como cabe ao Poder Judiciário dirimir conflitos a partir dos casos concretos, teríamos, no nosso caso específico, uma resolução “informal”, sem burocracia e rápida: através da “carteirada”, do jeitinho, da ameaça velada e do “você sabe com quem está falando?”
Da Matta chama a atenção para um dado que seria peculiarmente brasileiro na noção de pessoa: a troca de favores, o jeitinho, a “carteirada”. Em duas justificativas, a tendência à corrupção e à refração da lei geral. O mundo da política seria a esfera privilegiada dessa inclinação nacional, a qual não passaria despercebida aos “indivíduos”, aos homens comuns sem meios de troca nesse comércio generalizado de favores. O resultado não passa, porém, despercebido à massa brasileira que vê na atividade política um jogo fundamentalmente sujo, onde existe de tudo, menos ética.
Tem-se exemplos da própria mídia personificando a figura do malandro como um camarada muito esperto e que merece respeito. Nas novelas brasileiras sempre tem alguém assim. Durante a trama se envolvem em conflitos e através do jeitinho resolvem seus problemas pessoais. Ele viabiliza a utilização dos recursos ilícitos de uma maneira amistosa. Neste sentido, permanece como reforçador de comportamentos que visam ao benefício próprio, apontado geralmente, como justificativa para a institucionalização da malandragem.
Esse mecanismo de navegação social pode ser comparado ao uso das estratégias de negociação nos contratos sociais, em muitas vezes equiparado a um ajuste social para superar as dificuldades financeiras das camadas desprivilegiadas e a aceitação de certas transgressões como forma de protesto.
Nas massas e no individualismo há paradoxo quanto a esse assunto. Os agentes sociais se contradizem e relativizam a corrupção. Pode-se falar mal do governo, ou do próprio reitor da universidade em que trabalha, dizendo este ser um corrupto e, ao mesmo tempo, “furtar” o suco de um colega de trabalho. Também tem aquele que vive de passar cheque e depois “sustar” por “desacordo comercial”. O governante é chamado de corrupto quando faz caixa dois, desvia dinheiro público e sonega imposto, e de amigo quando manobra suas influências para abocanhar uma vaga no funcionalismo público. Nós, quando sonegamos impostos, estamos apenas nos protegendo de um Leão voraz.
Corrupção não está apenas no campo político, mas em toda a sociedade. E seria muita hipocrisia não admitir isso.
O Brasil enfrenta uma crise ética de grandes proporções e desta forma o desafio de preservar a integridade moral e o vencimento de obstáculos tornou-se necessidade constante na vida em coletividade.
Em função da prática generalizada, que faz parte do nosso dia-a-dia, a rigidez da honestidade acabou sendo domesticada e agora assume novas proporções. E esse tipo de atitude, que vem se expandindo, contribui para aumentar a desigualdade social e até mesmo para legitimá-la. Esta prática possibilita o condicionamento dos indivíduos para negar a prestação dos serviços com igualdade e presumível negação da alteridade, já que sugere a exclusão de quem não possui relações sociais para justificarem o seu beneficiamento.
Esta incoerência entre as normas burocráticas e as regras da vida prática, induz a uma falta de bom-senso, que altera as regras de convivência em sociedade e permite a interferência das relações pessoais nas leis universais.

3 comentários:

Eduardo "Tob" disse...

Muito bom o texto. Utilizei em uma atividade na disciplina em que leciono.

Eduardo "Tob" disse...

Muito bom o texto. Utilizei em uma atividade na disciplina em que leciono.

danilo dias leal disse...

O país do Jeitinho, da corrupção,dos opressores

Danilo Dias Leal
Pedagogo/PUCMINAS